Todaiji, Nara
Eu andava seca, sem palavras dançando na minha cabeça. às vezes sentava e rabiscava algo. Lia, ouvia música, observava as pessoas. Anotava. Na hora de escrever, não dava. Naaada. Pra eu escrever é preciso apertar o botão do sentimento. Acontece de repente. Não se trata de inspiração. O primitivo emerge, não tenho mais cabeça, sou só coração. Essa semana eu tive um momento coração. Não foi lendo Hilda Hilst, nem Clarice, nem Willian Gibson. Foi lendo o mangá NANA, da Yazawa Ai. Numa cena apareceu amazake (sake quente e doce). De imediato caí no meio de uma velha lojinha de souvenirs localizada aos arredores do templo Tôdaiji, em Nara, Japão. Uma das coisas que mais me surpreendeu no Japão é a quantidade de lugares simples, sujos e pobres. A lojinha tinha lembrancinhas empoeiradas. Os donos pareciam fazer parte daquele lugar há anos. E devia ser isso mesmo. Muitas lembrancinhas em formato de shika, os veados japoneses que reinam em muitos templos. Reinam não seria bem o termo… "Infestam" talvez? De longe eles são bonitinhos e dá vontade de sair correndo atrás deles, coisa que a idiota aqui fez, óbvio, mas é só chegar perto e eles tentam roubar sua comida. Ainda por cima cheiram mal. Não fazem nenhum agrado. Eles não são animais domésticos, porra! E foi por isso que perdi o tesão de comprar a desbotada Hello Kitty com capuzinho de bambi. Mas a lojinha tinha mais a oferecer. No fundo do estabelecimento, havia mesinhas para refeições rápidas, tudo apertado e mal-iluminado. Amazake para esquentar. Fora eu e meus pais do homestay, havia uma família com duas crianças falando animadamente. Engraçado como no Japão tem tanta criança e tanta família feliz passeando, diferente das estatísticas de divórcio, aborto e controle de natalidade que lemos sobre o país. E as crianças de lá são uma delícia. Se vestem com roupinhas lindas e fazem coisas de criança. São espontâneas e tímidas e charmosas. Não tenho certeza, mas acho que as fases infantil, adolescente, adulto e idosa são mais delineadas naquelas ilhas. Naquelas ilhas que sempre sonhei. A infância me visitava também ali, no meio daquele puta frio, num típico passeio de final de semana. Meus pais japoneses. Sorriam e falavam. O quê, eu não lembro. A sensação ecoava: "sinta-se bem". Nossos rostos vermelhos por causa da bebida, meu hálito doce gengibre. Sinta-se bem sinta-se bem. Não lembro a última vez que me senti assim. Que nome se dá a isso? Será algum coisa perdida dentro de nós? Poxa, um amazake põe a gente pra pensar…
há + arte nas ruas ou nas galerias de arte…?

