Bye, bye, Blackbird
Ao cair da tarde do início de março, chuva fina, um jovem dobrou uma esquina e começou a descer uma enorme ladeira. Carros enfileiravam-se na avenida, executando sua sinfonia industrial irracional. O rapaz, um músico de 28 anos espreitava os motoristas com o canto do olho, dirigindo-lhes ódio. Envolta em uma capa preta, uma guitarra dependurava-se em suas costas. Kadu tocava há sete anos em inferninhos. Além da horda de drogados inúteis, o que mais lhe subia o sangue eram os donos dos lugares, pessoas que o tratavam mais ou menos como um arranjo de flores – um item decorativo. Chefe que não paga, músico que não aparece, equipamento pifando, bêbados inconvenientes. Kadu já não sentia mais tanto por ele próprio, mas pela música em si. A música não merece ser tratada assim. Quando via aqueles motoristas idiotas buzinando, tinha vontade de socá-los. Eles deviam ter vidas muito melhores que a sua. Não se frustravam tentando uma vida com pessoas erradas, equivocadas. Ou talvez não, talvez eles estivessem igualmente frustrados. E aquela chuva foi apertando, os pingos tornando-se maiores. Seus grandes olhos azuis, duas órbitas perdidas em uma folha pálida, comprimiram-se.
Sobremesa preferida: brigadeirão. A mãe fazia pelo menos uma vez por mês e por isso, e ele precisava ficar em casa à tarde, para que ela terminasse e ele pudesse comer. Odiava ficar em casa porque sempre tinha a casa dos coleguinhas para ir. Jogava videogame, via revista de mulher pelada e estudava. Além disso, fazia natação e inglês. Sua vida era normal para um garoto de 12 anos até um colega mostrar um disco de vinil do Who. O ritual do vinil! Selecionar um disco da estante, pegar naquela capa enorme, de uma arte estranha, alienígena, botar o disco, encostar a agulha delicadamente e: !!! Eletricidade, tesão, alegria, raiva. Kadu viu todo o seu futuro em três minutos da faixa Talking about my generation. E foi o início de sua alegria e de seu maior problema.
O chão estava sujo, repleto de folhas, propagandas e lixo. Tomara que a chuva limpe tudo - resmungou para si. E ela apertou, apertou, até ele ir para baixo de uma árvore. Botou as mãos no bolso da calça jeans e lá encontrou papéis. Tinha o costume de jogar tudo o que é papel nos bolsos e nunca tirava. No bolo de notas de supermercado, encontrou o ingresso do show do Motorhead, que ele abriu com a sua banda, a Blackbird. Isso há uns 6 anos atrás. Foi o primeiro show grande, tinha muito gente lá pra ver a banda principal e era uma oportunidade para a Blackbird Blues. Estavam tão nervosos, que o Zé, o outro guitarrista, errou uma transição. Nisso, o batera sacou numa fração de segundo e… mudou o ritmo, ficou só no bumbo e na caixa esperando. Kadu improvisou qualquer nota, ao que foi seguido pelo baixista, e assim, pela banda. O público vibrou, gritando e assobiando. Foi o improviso mais inspirado que tiveram. E veio de um erro brusco.
- Chega de trovões, melhor sair daqui. - E andou rápido, pulou uma poça. Um caminhão estampado com rostos de modelos em tamanho gigante lhe deu um banho e ele fez de tudo para proteger sua guitarra. Pensou que iria tirar fotos, muitas fotos, com a banda nova.
Banda nova. O dia em que foi chamado… 13 de abril. Depois de testes, entrevistas, demonstrações, seu celular tocou. A secretária do dono da gravadora lhe disse – Sr Moraes? O sr foi aprovado! Parabéns! Pode começar a arrumar as suas malas… Em duas semanas o sr parte para a Inglaterra. E a sua namorada, como se sente? Sr Moraes? – Kadu não conseguia ouvir, a voz da mulher parecia mais um zumbido… ela estava dizendo que ele fora aprovado; não, escolhido entre hum… duzentos guitarristas de toda parte do mundo para integrar uma banda mainstream… de repente, nada mais fazia sentido… aquilo era ótimo, mas agora ele já não tinha tanta certeza do que queria – mas os meus amigos estão aqui, como posso sair? Eu deveria me sentir orgulhoso, sim. E meus amigos também deveriam ficar felizes por mim. Então, por que esse sentimento de traição…? – perdido em pensamentos estéreis, viu o muro do cemitério chegar ao fim. O estúdio deveria ficar ali perto, mas não o encontrava. Nenhum transeunte além dele, casas sem sinal de gente. Entre duas casas, uma porta entreaberta. Um trovão ressoa e uma chuva torrencial começa. Kadu entra pela tal porta apressado. Um galpão escuro se apresenta aos seus olhos. Avista uma luz vindo de um corredor. Segue-a e encontra uma gruta.
Uma lembrança da Blackbird, a mais triste de todas. Numa tarde ensolarada de 2004, Kadu, Zé e Patrícia arrumaram duas caixas de papelão, colocaram todos os pertences de seu amigo e saíram rumo ao hospital. No caminho para o ponto de ônibus, os três fumaram o último maço de Marlboro deixado por Eric. Eric era um ruivo alto, o primeiro baixista da Blackbird. Nunca se metia em brigas, nem traía suas namoradas. Vivia a vida de um jeito simples, sem arrogância ou melancolia. Conheceu Patrícia na fila do supermercado, quando a deixou passar com uma esponja de lavar louça. Pensou: ela deve morar sozinha. Daí então um ano se passou e foram morar juntos. Ele fumava muito, como o pai. Aos 19 anos, começou a sentir fortes dores nas costas. Depois de diversos exames, diagnosticaram câncer no pulmão. Os pais de Eric, que tinham um certo dinheiro, vieram buscá-lo para levá-lo de volta à Porto Alegre. Porém, o tratamento teria de ser feito em São Paulo, então, eles resolveram ficar na cidade por um tempo. Mas não queriam que ele continuasse mais na república e pediram todas as suas coisas de volta. Quando os três chegaram ao quarto do hospital, levaram um susto com a palidez do amigo. O ambiente todo cheirava a doença, era quente, escuro e abafado. Eric quem queria que ficasse desse jeito, pois não suportava a luz ou o frio. Seus pais os cumprimentaram e saíram. Sozinhos, eles olharam para Eric por um longo tempo. – Então, meus amigos, como estão?, sorriu, eu gostaria de pedir uma coisa a vocês… Quero que fiquem com o meu baixo. Sei que vão fazer bom uso dele. – Os três, no entanto recusaram firmemente, alegando que logo ele estaria bom e a banda poderia voltar a ensaiar. Mas Eric insistiu, alegre – se recusarem, nunca mais falo com vocês. – Saíram do hospital à noite. Começou a chover, a multidão corria para o seu destino. Mas os três, ali parados, não sabiam o que fazer com um contra-baixo. Um deles entrou na chuva, e depois outro e outro. Foram andando para casa sentindo uma espécie de ressaca, com fome e frio, sem sequer lembrarem-se do endereço direito. Não falaram nenhuma palavra pelo resto da noite, mas todos sabiam que era o fim.
- Será que é só isso, então? A vida… – pensou Kadu enquanto observava a caverna repleta de pó dourado: partículas de ouro salpicadas na escuridão das pedras, do chão, e da água. Entre sombras, viu dois leões chineses guardando o recinto. À frente, um torii, um portal japonês que antecede templos xintoístas. Talvez estivesse ali há muito tempo. O portal estava erguido dentro de uma pequena lagoa. No fundo, para além do portal, um móvel de madeira. O portal não era vermelhão, mas cor de madeira, nunca alguém o havia pintado. Sua madeira exalava um odor exótico como o que a gente imagina quando pensa no Oriente. Kadu encostou a sua guitarra numa pedra e pisou na água. À medida que andava, a dificuldade e a profundidade aumentavam. Quando já se encontrava com água acima dos joelhos, finalmente aproximou-se do velho móvel.
Em cima dele, havia um livro velho e roto. Pôs-se a folheá-lo: um apanhado de sutras budistas. Folhas arrancadas. Trechos apagados. Leu em voz alta: “Conceba o som de uma palma batendo”. Assim, ao som destas, o grande portal desabou, seguido das pedras daquela caverna, que soterraram Kadu.