22/02/2007. Quinta-feira.
Hoje, começa a última viagem, que é para Hiroshima. Aqui, na estação Shin-Osaka, vejo todos do meu grupo de intercâmbio. Cada um tem brilho nos olhos, repletos de sonhos. Mas eu não tenho a capacidade de respeita-las. Em uma competição para saber quem é o mais esquisito, quem vence? A intelectualidade nos faz estúpidos.
As pessoas de preto, sempre preto (e o colorido mostrado pelas revistas?), a pressa. A ausência de latas de lixo. As japonesas de mini-saia no inverno. A espera pelo Shinkansen. Tudo isso acabará em poucos dias.
Não devo fazer aqui o que faço no meu país. No entanto, sendo brasileira, não seria natural que agisse como tal? O protocolo japonês é bem mais complexo do que imaginei - não há livro que documente tal complexidade.
MIYAJIMA
Chegamos à Miyajima. Todos tiram fotos deste lugar sagrado. Isso me remete a um episódio curioso… o boato de que uma vez, o vocalista do Guns ´n´Roses desceu do palco e bateu em um fotógrafo. Agora que todos agem dessa forma mecânica e não vivencam a beleza desta experiência, sinto porque Axl fez aquilo. Mas, talvez, as coisas que me interessam não sejam úteis. Em casa, essas pessoas terão fotos para mostrar e eu, nada.
Aqui é tão maior do que qualquer foto possa representar. Séculos de história devem ser sentidos. É no ranger da madeira, no odor exótico do antigo. E aí sinto como a raça humana é poderosa, como nós podemos ser além de um corpo frágil. Eu não quero um guia me dizendo que aqui é "unbreathfully beautiful". Cada um deve descobrir isso sozinho.

(ilustração: Dave McKean)
EU SOU DE CAPRICÓRNIO, eu junto um monte de coisa com receio de esquecer uma época minha. aqui em Santos há um ármario que conta minha vida sozinho - correspondências de fanzineiros ou japoneses, revistas Wizard, Vogue, HQ´s sem nenhuma coleção completa, álbuns de figurinhas, bonequinhos dos Cavaleiros do Zodíaco, um LP do Guns - e eu nunca tive toca-discos-, fotos, recortes, textos à mão, rascunhos. Tudo pela metade. Algo começado numa febre, num ímpeto que precisava ser cumprido. De repente, abandonado melancolicamente como se me desse conta de algo. Ascendente sagitário ou lua em aquário?

Santos- tempo livre - tanto que é à vontade - espaço bom - comida restauradora - a família que não é de sangue, mas é família - a família que é de sangue e é amiga - o som de nina simone.
(desenho é uma tentativa de mangá de Nina. Ela nos anos 60s, black power. Não se vê muito mangá sobre negros. Se tem, não deve fazer sucesso. Poxa, a vida dessa mulher daria uma ótima série.)
O Sol. O Sol Me segue caminho sem dor. Outrora madrugada preocupada demais para descanso. Levanto da cama, um cavalo sem nome lá fora me espera. O céu de estrelas como nunca mais vi. No meio de São Paulo, uma pequena cidade chegou. Dizem que tem nuvens, dizem que tem gente. Ah como andei por lá. As casas mal-acabadas. Silenciosas. Famílias em seu sono tranqüilo junto de seus animais. O som de um velho Passat cortando o vento numa rua próxima. A crina dura do meu cavalo quase machuca. Meu corpo impulsionado. Movimentos de fusão. Nos damos bem. Um leve toque para que vire à direita e ele vira. Nem mais, nem menos. Corremos pelas estradas, ruas abandonadas. À espreita, fantasmas. Ex-namorados em pontos de ônibus. Escondo meu rosto. Ele olhou para mim? Ou eu olhei para ele… Esquina, asfalto, escombro, estrada, terra, espaço, céu. Carros abandonados. Encontros mal-fadados. Vento suave frio arrepia. Cavalo relincha. Me abençoa com sua selvageria. As grandes árvores e suas folhas instrumento afinam uma canção alemã. Uma que te fez chorar enquanto dormia. Encontrar-se a si mesmo no escuro. Sem tatear. Pisar firme sem ter onde pisar. Você disse que me seguraria. Sujeira branca não te deixou ficar. Amarelo meu rosto de tanta pizza no almoço. Um violão não é uma guitarra. Elas estão ficando perto, galope. Para o bar. Para a casa de um amigo. Para o mais próximo abrigo. Uma parada, uma descida. Vou para mim. A pé, descalça, pisando na lama, virando mata. Cavalo partido para o horizonte. E eu sozinha em direção não sei pra onde.
Eu andava seca, sem palavras dançando na minha cabeça. às vezes sentava e rabiscava algo. Lia, ouvia música, observava as pessoas. Anotava. Na hora de escrever, não dava. Naaada. Pra eu escrever é preciso apertar o botão do sentimento. Acontece de repente. Não se trata de inspiração. O primitivo emerge, não tenho mais cabeça, sou só coração. Essa semana eu tive um momento coração. Não foi lendo Hilda Hilst, nem Clarice, nem Willian Gibson. Foi lendo o mangá NANA, da Yazawa Ai. Numa cena apareceu amazake (sake quente e doce). De imediato caí no meio de uma velha lojinha de souvenirs localizada aos arredores do templo Tôdaiji, em Nara, Japão. Uma das coisas que mais me surpreendeu no Japão é a quantidade de lugares simples, sujos e pobres. A lojinha tinha lembrancinhas empoeiradas. Os donos pareciam fazer parte daquele lugar há anos. E devia ser isso mesmo. Muitas lembrancinhas em formato de shika, os veados japoneses que reinam em muitos templos. Reinam não seria bem o termo… "Infestam" talvez? De longe eles são bonitinhos e dá vontade de sair correndo atrás deles, coisa que a idiota aqui fez, óbvio, mas é só chegar perto e eles tentam roubar sua comida. Ainda por cima cheiram mal. Não fazem nenhum agrado. Eles não são animais domésticos, porra! E foi por isso que perdi o tesão de comprar a desbotada Hello Kitty com capuzinho de bambi. Mas a lojinha tinha mais a oferecer. No fundo do estabelecimento, havia mesinhas para refeições rápidas, tudo apertado e mal-iluminado. Amazake para esquentar. Fora eu e meus pais do homestay, havia uma família com duas crianças falando animadamente. Engraçado como no Japão tem tanta criança e tanta família feliz passeando, diferente das estatísticas de divórcio, aborto e controle de natalidade que lemos sobre o país. E as crianças de lá são uma delícia. Se vestem com roupinhas lindas e fazem coisas de criança. São espontâneas e tímidas e charmosas. Não tenho certeza, mas acho que as fases infantil, adolescente, adulto e idosa são mais delineadas naquelas ilhas. Naquelas ilhas que sempre sonhei. A infância me visitava também ali, no meio daquele puta frio, num típico passeio de final de semana. Meus pais japoneses. Sorriam e falavam. O quê, eu não lembro. A sensação ecoava: "sinta-se bem". Nossos rostos vermelhos por causa da bebida, meu hálito doce gengibre. Sinta-se bem sinta-se bem. Não lembro a última vez que me senti assim. Que nome se dá a isso? Será algum coisa perdida dentro de nós? Poxa, um amazake põe a gente pra pensar…
há + arte nas ruas ou nas galerias de arte…?
kamira (pessoal)
| October 19, 2008 10:28 pm | COMENTE
chorei de raiva. chorei de tantas vezes querer saber a razão e o que me respondem é: porque é. As pessoas colocam-se numa posição de superiores, de que sabem mais e não se darão ao trabalho de explicar, mas no fundo o que elas são é ignorantes. sentei na cama sem saber no que pensar. sentia raiva, queria gritar tão alto. revolta. acham que me fazem de tola. assisto de braços cruzados pensando como vc é podre, como vc é insincero. fico decepcionada por um momento, depois viro as costas como sempre. prefiro ficar sozinha. me deixe ficar sozinha. estou me sentindo doente. meu corpo está frio, dolorido e febril. imaginei que tinha ido ao médico e ele me perguntou qual remédio eu tomo - eu não soube responder. eu não sei responder. pouco me importo comigo. talvez tenha comido algum produto estragado, mas nem me dei conta, não vou olhar a data de validade, sei que não. por mais instrução que eu tenha, algo me impede de olhar a data de validade. é que uma hora isso ocorre. tanto faz se é a data, tanto faz se é o meu corpo. não, não é essa a resposta. eu quero fazer mal a mim mesma pra cair lânguida no chão. quero ser vista, mas sem ver. que coisa é essa que nos rege? a resposta é breve.

ai brasil
eu não to nem aí pras olímpiadas. mas eu gosto tanto do meu país.
eu amo o Japão tb. Ele me faz enxergar tudo o que o Brasil significa. Meus amigos japoneses andam pela casa cantarolando o hino brasileiro. É tão imponente, o nosso hino. Na escola, quando tínhamos cerimônias em que ele era executado, muitas crianças faziam algazarras. Eu gostava de olhar o rosto dos professores. Muitos deles têm um quê de herói marginal. Depois fitava o céu. A bandeira verde imperando o azul. Meu coração batia forte. A sensação de fazer parte de uma história. Uma história cheia de sangue e beijos.
Essa coisa de criança às vezes me visita. É um sentimento puro livre de porquês. E esse fim de semana ela veio. Fui assistir à peça Cordélia Brasil no SESC sábado passado. É kitsch, é punk. O punk tinha muito de ridículo. E o ridículo é muito sincero. Os três atores interpretam personagens do passado. Mas ainda é super atual. A Cordélia, uma puta inocente. O Leonidas, um sonhador. Ele era o mais encantador. Me lembrou um ex que também adorava quadrinhos e era interessado por pessoas. A peça é cheia de referências. Robert Crumb, tropicalismo, Freud. Eles falam de signos. Horóscopo, não! Astrologia haha. E eu adoro essas coisas desde que li Camille Paglia. Aliás, fiz o meu mapa astral e foi uma das melhores atitudes que tomei na minha vida, depois de decidir estudar japonês.
ontem bebi um pouquinho. Senti tanta falta da faculdade, da cerveja barata, das festas de república. Os carinhas maconheiros toscos. Mas pelo menos eram bonitinhos. Sempre com o papinho sobre Pink Floyd e o Mágico de Oz. Minha lua é em aquário. Quer dizer que minhas emoções são aquarianas, contestadoras e visionárias. Meu signo solar é capricórnio. Terra, chão, racionalismo total.
Por alguns anos eu fui atéia. Bem convicta. Aí a Camille me mostrou a genialidade por trás dos misticismos antigos da humanidade. Mudei de idéia. Fiquei um pouco agnóstica. Outro dia li Hilda Hilst. Ela disse que não frequenta Deus por pudor. Depois li Gandhi. Gandhi foi uma experiência tão foda. Sentia que ele estava cavucando uma coisa dentro de mim. O coração. Me deu choques. Vida, vida, vida. Vínculo, vínculo. Amor. Entendi a música All You Need is Love dos Beatles. Achava a letra sem sentido. Mas ela é óbvia como filosofia oriental. Por exemplo, um koan zen. Koan era tipo um… enigma que os mestres do zen budismo propunham aos seu alunos. O mais famoso é: conceba o som de uma palma batendo.
curo-me de uma fraqueza (mais conhecida como paixão) para cair em outra. eu não ligo. eu adoro.
ficar assim é um estado aéreo. me empurra pra raiva, me empurra pra escrever. me chama pro sexo. me questiona.
olhei para o céu da janela do ônibus. não olhei para você, homem ridículo, olhei para mim, para o meu umbigo.
noite. fim. vela, luz, cigarro.
os cabelos de maria padilha tão vistosos no palco. balançavam pra lá e pra cá, pra lá pra cá.
morte à chapinhaaaaaaaaaaa
(eu moro com um monte de bêbados)
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