são paulo spiritual wasteland #2
O ônibus corria. Era meia-noite de sexta. Os últimos trabalhadores misturados aos modernos, rappers, gays, emos. Ou qualquer tipo de gente possível nesta cidade. Ouço a conversa do cobrador em intervalos. Algo sobre sua família (entra pensamento alheio), o sítio (reparo na roupa de uma indie), a mulher (vontade de beber). Blahblahblah e teve uma história publicada. Legal. Meio dormente, ainda consigo pensar que as pessoas têm uma necessidade EXTRAORDINÁRIA de falar. Se você dá uma brecha, já era. É como se elas estivessem esperando por essa oportunidade há anos. Quando ela chega, seus egos inflam até o céu. Mesmo que com simplicidade. Penso depois na ausência de alguém. Alguém que não sei o nome, ainda não o encontrei. Meu ponto chega, agradeço a viagem. Céu pálido. A casa dele ficava numa rua escura, mas com casinhas amistosas. Meio coisa de interior. São Paulo é muito interior. Tóquio é uma avenida Paulista ligada na outra, uma coisa absurda. Toco a campainha, ninguém atende. Pego o celular, não ligo. Ele vem por trás. Tem uma sacola de cerveja. Daqui pra frente, tudo pode mudar. Ele gosta de Chaplin. Eu quero ver Hedwig. Não quero ouvir nada. Tá, põe Ramones então. Não, the Clash. Tá, você quem sabe. Deixa pra lá. Seu amigo vem? Ah, que coisa sem graça. Eu. Também gosto de comida vegetariana se eu te tocar, vou sentir uma descarga elétrica. I can´t believe that life´s so complex. Pare de me olhar desse jeito. When I just wanna sit here and watch you undress. O que você quer? I can´t believe that life´s so complex. Me dá um cigarro, falo com a voz fraca. When I just want to sit here Não, não curto namorar. E você? and watch you undress. Vem aqui. This is love, this is love that i´m feeling. This is love, love, love, that I´m feeling. Cada poro, cada toque. Goles. Beber até nos tornamos santos. E de manhã verei o sol refletir a seda da sua pele.
- Eu queria ser um buda iluminado.
E ele responde:
- Posso beijar os seus pés?
O quê? (Beijar seus pés.) Pra quê? (Você sabe o que dizem sobre isso.) … (Só se beija os pés dos iluminados.) Jesus, vou embora. (Não, fica. Foi brincadeira) E esse olhar sério?
Nunca tive interesse em pessoas de dread. Nem com alargador. Mas eu estava ali. Por quê? Pra ver o que eles têm. Uma pesquisa. 80% dos que têm body modification tem algo a menos… Se é que me entende.
Que mão gelada. A minha. Silêncio. Me olha como se eu fosse surpreendente. Espera que eu conte da minha vida, mas eu não conto. Apóio a mão no queixo. Por que você namora? (Porque eu me sinto muito sozinho.) A última que eu apronto. Chega de aventura. Ah, então é esse o queridinho da faculdade. Vem aqui, eu chamo. Desajeitado, ele vem. Solidão declarada. Quanta sinceridade. Lembranças. Os dedos gelados de um dentro de mim. O abraço suado de outro. O sorriso triste da Carol me chamando pra ficar, o olhar manso do Snoopy como se tivesse fumado, beijos violentos do Adriano. Esperei selvageria dele. Mas ele não sabia onde colocar suas mãos. Morno como leite. Não atendeu bem a minha sede. Boa noite. Trate bem sua namorada.