Uma pessoa me perguntou porque eu não havia escrito uma crítica a respeito de Bons Costumes, se havia feito isso por Amor sem Escalas. Acho difícil criticar algo que gostamos, não é? E A mente que mente (the great Buck Howard – ou seja, mais um título brasileiro que estraga a história e rebaixa o intelecto destes cidadãos) é mais um filme desses, dos filmes bons para mim. Certamente não foi e nem será muito reparado pela crítica. O público dele talvez não exista. Mas ele tem um lugar no meu coração. E é por aí que eu gostaria de começar, pelo melodrama. Acho que o filme tem um melodrama bom. Como isso pode acontecer? Bom, a história é sobre um mágico mentalista decadente (em um nível de, digamos, 65%), haja visto que ele já tivera tempos melhores quando apresentava-se no programa Late Show with Johnny Carson nos idos anos 70s. Estamos falando do personagem de John Malkovich, o grande Buck Howard, que ainda sustenta algum sucesso entre os norte-americanos do interior, levando o seu show que inclui fazer pessoas dormir, tocar músicas bregas ao piano, pedir que o público esconda o seu cachê para que ele depois – quase que infalivelmente – descubra o lugar. Acompanhando essa figura, está o gerente de operações Troy, que é interpretado pelo filho de Tom Hanks(que faz uma ponta no filme), Colin. Troy é um rapaz que larga a faculdade de direito para ser escritor, mas para ganhar dinheiro resolve investir em um pouco de “experiência de vida” no cargo de gerente de operações de Buck Howard. Eles começam a fazer turnês, o que acaba gerando conflitos, mas Troy é um rapaz sossegado – arriscaria a dizer que é um personagem plano: tem um objetivo e poucas contradições. Simpatiza com o seu chefe, apesar dos ataques de estrelismo. A Troy somam-se uma jovem relações públicas dessas competitivas modernas, um empresário acomodado e um bom número de fãs de meia-idade, presos às lembranças de Buck na televisão, que moram em cidadezinhas. É esse cenário de marasmo que, na minha opinião, alicerça a grande perfomance de Buck e John Malkovich. As boas falas são dele, os momentos também. Em cada cidade pequena, nos palcos gastos, entre senhoras e senhores gordinhos, lá está ele dizendo “eu amo essa cidade!”.
O filme foi colocado na categoria comédia, mas há drama também. Custa colocar “comédia dramática”? A quem os marqueteiros dos cinemas brasileiros estão querendo enganar colocando um título desses? Jovens desavisados que perderam a seção de Avatar? O título sugere mentira, mas isso passa longe do tema principal do filme que é o mistério em volta de figuras míticas da mídia, mesmo as esquecidas.
Um filme muito bem feito e adequado à época em que vivemos, Up in the air, foi nomeado a seis categorias no Globo de Ouro mas ganhou apenas em uma – roteiro.
Tendo a crise financeira como pano de fundo, George Clooney faz Ryan Binghan, um homem cujo trabalho é viajar ao redor dos Estados Unidos demitindo gente. Binghan é o americano prático, de pouca bagagem, de relacionamentos esparsos e que só se sente bem voando, também colecionador efusivo de milhagens aéreas e cartões de fidelidade. Mas uma garota de nome Natalie, nova contratada de sua empresa, desenvolve um método de video-conferência que permitirá demitir pessoas de qualquer lugar sem ter de voar, o que, evidentemente ameaça o estilo de vida que o personagem de Clooney tanto preza. Binghan leva a jovem arrogante em sua turnê de demissões, tentando lhe mostrar que seu trabalho exige um pouco de toque humano. Enquanto isso, mantém um relacionamento umas pausas casuais com Alex Goran, mulher bonita-bem-sucedida- bem-resolvida, mas que talvez não seja tão perfeita.
Acho importante falar disso que está acontecendo. Sobre o sistema corporativo podre demitindo seus melhores funcionários, sobre pessoas que têm empregos como o de Binghan – demitir de forma educada e higiênica, afastando a possibilidade de processos. Sobre como as pessoas isolam-se cada vez mais em redomas de vidro tecnológicas, em relacionamentos por sms, deixando para trás famílias desmembradas e chances de romance.
Amor sem escalas é o tipo de filme pessimista cético que me agradaria alguns anos atrás. Mas hoje em dia, vivendo em uma cidade cínica como São Paulo, prefiro entrar no cinema para viver outras realidades. Como me disse uma pessoa, Bastardos Inglórios merecia mais o prêmio de roteiro do que Amor sem escalas (aliás, péssimo nome, não?).
kamira (cinema)
| January 23, 2010 3:14 pm | COMENTE
O que acontece quando uma norte-americana independente casa-se com um jovem inglês pertencente a uma conservadora família? Dirigido por Stephan Elliott, mesmo diretor de Priscilla, A Rainha do Deserto, o filme é uma adaptação de peça homônima escrita por Noel Coward em 1924.
O principal embate é entre a nora Larita (modernidade) e a sogra Veronica Whittaker (tradição) em diálogos de fina ironia, dignos de Oscar Wilde.
O elenco é formado por Jessica Biel (que havia se destacado n´O Ilusionista) , Kristin Scott Thomas (nomeada ao Oscar por O Paciente Inglês), Colin Firth e Ben Barnes (estes últimos contracenaram novamente em Dorian Gray - adaptação do romance de Oscar Wilde lançado em 2009 e sem previsão no Brasil).
Algumas fotos – achei o figurino demais!
pouco dandy?
Jessica Biel e Colin Firth…
Mamãe malvada e suas comparsas
Poppy!
Só para encerrar, achei muito fino o cartaz da França:
Capa do dvd
Bons Costumes estreou em 2008 com passagem pelo London Film Festival, Festival do Rio e outros, e por isso considero estranho o fato de chegar tão tarde às telas paulistas.
Já morei em Santos e Assis – cidades interioranas. Mas imagine que em São Paulo tenho encontrado gente que dispara mais gafes gramaticais do que nesses lugarezinhos? Outro dia, uma pessoa bastante correta lamentou-se:
"Isso me dá uma dó..."
Senti um arrepio na pele. A naturalidade da colocação foi o fator mais chocante. Dó, pó, avós são substantivos masculinos.
Sem mais explicações, colo aqui trecho do dicionário Houaiss:
Dó
substantivo masculino
1sentimento de pena com relação a alguém, a si mesmo ou a alguma coisa; compaixão
2expressão de grande tristeza e mágoa por alguém, por si ou por alguma coisa; pesar
Ao cair da tarde do início de março, chuva fina, um jovem dobrou uma esquina e começou a descer uma enorme ladeira. Carros enfileiravam-se na avenida, executando sua sinfonia industrial irracional. O rapaz, um músico de 28 anos espreitava os motoristas com o canto do olho, dirigindo-lhes ódio. Envolta em uma capa preta, uma guitarra dependurava-se em suas costas. Kadu tocava há sete anos em inferninhos. Além da horda de drogados inúteis, o que mais lhe subia o sangue eram os donos dos lugares, pessoas que o tratavam mais ou menos como um arranjo de flores – um item decorativo. Chefe que não paga, músico que não aparece, equipamento pifando, bêbados inconvenientes. Kadu já não sentia mais tanto por ele próprio, mas pela música em si. A música não merece ser tratada assim. Quando via aqueles motoristas idiotas buzinando, tinha vontade de socá-los. Eles deviam ter vidas muito melhores que a sua. Não se frustravam tentando uma vida com pessoas erradas, equivocadas. Ou talvez não, talvez eles estivessem igualmente frustrados. E aquela chuva foi apertando, os pingos tornando-se maiores. Seus grandes olhos azuis, duas órbitas perdidas em uma folha pálida, comprimiram-se.
Sobremesa preferida: brigadeirão. A mãe fazia pelo menos uma vez por mês e por isso, e ele precisava ficar em casa à tarde, para que ela terminasse e ele pudesse comer. Odiava ficar em casa porque sempre tinha a casa dos coleguinhas para ir. Jogava videogame, via revista de mulher pelada e estudava. Além disso, fazia natação e inglês. Sua vida era normal para um garoto de 12 anos até um colega mostrar um disco de vinil do Who. O ritual do vinil! Selecionar um disco da estante, pegar naquela capa enorme, de uma arte estranha, alienígena, botar o disco, encostar a agulha delicadamente e: Eletricidade, tesão, alegria, raiva. Kadu viu todo o seu futuro em três minutos da faixa Talking about my generation. E foi o início de sua alegria e de seu maior problema.
O chão estava sujo, repleto de folhas, propagandas e lixo. Tomara que a chuva limpe tudo – resmungou para si. E ela apertou, apertou, até ele ir para baixo de uma árvore. Botou as mãos no bolso da calça jeans e lá encontrou papéis. Tinha o costume de jogar tudo o que é papel nos bolsos e nunca tirava. No bolo de notas de supermercado, encontrou o ingresso do show do Motorhead, que ele abriu com a sua banda, a Blackbird. Isso há uns 6 anos atrás. Foi o primeiro show grande, tinha muito gente lá pra ver a banda principal e era uma oportunidade para a Blackbird Blues. Estavam tão nervosos, que o Zé, o outro guitarrista, errou uma transição. Nisso, o batera sacou numa fração de segundo e… mudou o ritmo, ficou só no bumbo e na caixa esperando. Kadu improvisou qualquer nota, ao que foi seguido pelo baixista, e assim, pela banda. O público vibrou, gritando e assobiando. Foi o improviso mais inspirado que tiveram. E veio de um erro brusco.
- Chega de trovões, melhor sair daqui. – E andou rápido, pulou uma poça. Um caminhão estampado com rostos de modelos em tamanho gigante lhe deu um banho e ele fez de tudo para proteger sua guitarra. Pensou que iria tirar fotos, muitas fotos, com a banda nova.
Banda nova. O dia em que foi chamado… 13 de abril. Depois de testes, entrevistas, demonstrações, seu celular tocou. A secretária do dono da gravadora lhe disse – Sr Moraes? O sr foi aprovado! Parabéns! Pode começar a arrumar as suas malas… Em duas semanas o sr parte para a Inglaterra. E a sua namorada, como se sente? Sr Moraes? – Kadu não conseguia ouvir, a voz da mulher parecia mais um zumbido… ela estava dizendo que ele fora aprovado; não, escolhido entre hum… duzentos guitarristas de toda parte do mundo para integrar uma banda mainstream… de repente, nada mais fazia sentido… aquilo era ótimo, mas agora ele já não tinha tanta certeza do que queria – mas os meus amigos estão aqui, como posso sair? Eu deveria me sentir orgulhoso, sim. E meus amigos também deveriam ficar felizes por mim. Então, por que esse sentimento de traição…? – perdido em pensamentos estéreis, viu o muro do cemitério chegar ao fim. O estúdio deveria ficar ali perto, mas não o encontrava. Nenhum transeunte além dele, casas sem sinal de gente. Entre duas casas, uma porta entreaberta. Um trovão ressoa e uma chuva torrencial começa. Kadu entra pela tal porta apressado. Um galpão escuro se apresenta aos seus olhos. Avista uma luz vindo de um corredor. Segue-a e encontra uma gruta.
Uma lembrança da Blackbird, a mais triste de todas. Numa tarde ensolarada de 2004, Kadu, Zé e Patrícia arrumaram duas caixas de papelão, colocaram todos os pertences de seu amigo e saíram rumo ao hospital. No caminho para o ponto de ônibus, os três fumaram o último maço de Marlboro deixado por Eric. Eric era um ruivo alto, o primeiro baixista da Blackbird. Nunca se metia em brigas, nem traía suas namoradas. Vivia a vida de um jeito simples, sem arrogância ou melancolia. Conheceu Patrícia na fila do supermercado, quando a deixou passar com uma esponja de lavar louça. Pensou: ela deve morar sozinha. Daí então um ano se passou e foram morar juntos. Ele fumava muito, como o pai. Aos 19 anos, começou a sentir fortes dores nas costas. Depois de diversos exames, diagnosticaram câncer no pulmão. Os pais de Eric, que tinham um certo dinheiro, vieram buscá-lo para levá-lo de volta à Porto Alegre. Porém, o tratamento teria de ser feito em São Paulo, então, eles resolveram ficar na cidade por um tempo. Mas não queriam que ele continuasse mais na república e pediram todas as suas coisas de volta. Quando os três chegaram ao quarto do hospital, levaram um susto com a palidez do amigo. O ambiente todo cheirava a doença, era quente, escuro e abafado. Eric quem queria que ficasse desse jeito, pois não suportava a luz ou o frio. Seus pais os cumprimentaram e saíram. Sozinhos, eles olharam para Eric por um longo tempo. – Então, meus amigos, como estão?, sorriu, eu gostaria de pedir uma coisa a vocês… Quero que fiquem com o meu baixo. Sei que vão fazer bom uso dele. – Os três, no entanto recusaram firmemente, alegando que logo ele estaria bom e a banda poderia voltar a ensaiar. Mas Eric insistiu, alegre – se recusarem, nunca mais falo com vocês. – Saíram do hospital à noite. Começou a chover, a multidão corria para o seu destino. Mas os três, ali parados, não sabiam o que fazer com um contra-baixo. Um deles entrou na chuva, e depois outro e outro. Foram andando para casa sentindo uma espécie de ressaca, com fome e frio, sem sequer lembrarem-se do endereço direito. Não falaram nenhuma palavra pelo resto da noite, mas todos sabiam que era o fim….
EU SOU DE CAPRICÓRNIO, eu junto um monte de coisa com receio de esquecer uma época minha. aqui em Santos há um ármario que conta minha vida sozinho – correspondências de fanzineiros ou japoneses, revistas Wizard, Vogue, HQ´s sem nenhuma coleção completa, álbuns de figurinhas, bonequinhos dos Cavaleiros do Zodíaco, um LP do Guns – e eu nunca tive toca-discos-, fotos, recortes, textos à mão, rascunhos. Tudo pela metade. Algo começado numa febre, num ímpeto que precisava ser cumprido. De repente, abandonado melancolicamente como se me desse conta de algo. Ascendente sagitário ou lua em aquário?
O Sol. O Sol Me segue caminho sem dor. Outrora madrugada preocupada demais para descanso. Levanto da cama, um cavalo sem nome lá fora me espera. O céu de estrelas como nunca mais vi. No meio de São Paulo, uma pequena cidade chegou. Dizem que tem nuvens, dizem que tem gente. Ah como andei por lá. As casas mal-acabadas. Silenciosas. Famílias em seu sono tranqüilo junto de seus animais. O som de um velho Passat cortando o vento numa rua próxima. A crina dura do meu cavalo quase machuca. Meu corpo impulsionado. Movimentos de fusão. Nos damos bem. Um leve toque para que vire à direita e ele vira. Nem mais, nem menos. Corremos pelas estradas, ruas abandonadas. À espreita, fantasmas. Ex-namorados em pontos de ônibus. Escondo meu rosto. Ele olhou para mim? Ou eu olhei para ele… Esquina, asfalto, escombro, estrada, terra, espaço, céu. Carros abandonados. Encontros mal-fadados. Vento suave frio arrepia. Cavalo relincha. Me abençoa com sua selvageria. As grandes árvores e suas folhas instrumento afinam uma canção alemã. Uma que te fez chorar enquanto dormia. Encontrar-se a si mesmo no escuro. Sem tatear. Pisar firme sem ter onde pisar. Você disse que me seguraria. Sujeira branca não te deixou ficar. Amarelo meu rosto de tanta pizza no almoço. Um violão não é uma guitarra. Elas estão ficando perto, galope. Para o bar. Para a casa de um amigo. Para o mais próximo abrigo. Uma parada, uma descida. Vou para mim. A pé, descalça, pisando na lama, virando mata. Cavalo partido para o horizonte. E eu sozinha em direção não sei pra onde.
Eu andava seca, sem palavras dançando na minha cabeça. às vezes sentava e rabiscava algo. Lia, ouvia música, observava as pessoas. Anotava. Na hora de escrever, não dava. Naaada. Pra eu escrever é preciso apertar o botão do sentimento. Acontece de repente. Não se trata de inspiração. O primitivo emerge, não tenho mais cabeça, sou só coração. Essa semana eu tive um momento coração. Não foi lendo Hilda Hilst, nem Clarice, nem Willian Gibson. Foi lendo o mangá NANA, da Yazawa Ai. Numa cena apareceu amazake (sake quente e doce). De imediato caí no meio de uma velha lojinha de souvenirs localizada aos arredores do templo Tôdaiji, em Nara, Japão. Uma das coisas que mais me surpreendeu no Japão é a quantidade de lugares simples, sujos e pobres. A lojinha tinha lembrancinhas empoeiradas. Os donos pareciam fazer parte daquele lugar há anos. E devia ser isso mesmo. Muitas lembrancinhas em formato de shika, os veados japoneses que reinam em muitos templos. Reinam não seria bem o termo… "Infestam" talvez? De longe eles são bonitinhos e dá vontade de sair correndo atrás deles, coisa que a idiota aqui fez, óbvio, mas é só chegar perto e eles tentam roubar sua comida. Ainda por cima cheiram mal. Não fazem nenhum agrado. Eles não são animais domésticos, porra! E foi por isso que perdi o tesão de comprar a desbotada Hello Kitty com capuzinho de bambi. Mas a lojinha tinha mais a oferecer. No fundo do estabelecimento, havia mesinhas para refeições rápidas, tudo apertado e mal-iluminado. Amazake para esquentar. Fora eu e meus pais do homestay, havia uma família com duas crianças falando animadamente. Engraçado como no Japão tem tanta criança e tanta família feliz passeando, diferente das estatísticas de divórcio, aborto e controle de natalidade que lemos sobre o país. E as crianças de lá são uma delícia. Se vestem com roupinhas lindas e fazem coisas de criança. São espontâneas e tímidas e charmosas. Não tenho certeza, mas acho que as fases infantil, adolescente, adulto e idosa são mais delineadas naquelas ilhas. Naquelas ilhas que sempre sonhei. A infância me visitava também ali, no meio daquele puta frio, num típico passeio de final de semana. Meus pais japoneses. Sorriam e falavam. O quê, eu não lembro. A sensação ecoava: "sinta-se bem". Nossos rostos vermelhos por causa da bebida, meu hálito doce gengibre. Sinta-se bem sinta-se bem. Não lembro a última vez que me senti assim. Que nome se dá a isso? Será algum coisa perdida dentro de nós? Poxa, um amazake põe a gente pra pensar…
KAMIRA | I was working on the proof of one of my poems all the morning, and took out a comma. In the afternoon I put it back again.
Oscar Wilde kamiramonogatari@gmail.com